Impactos da IA no Meio Ambiente

Um estudo sobre o consumo de energia, água, minerais e o ciclo de vida da infraestrutura por trás da inteligência artificial.

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Introdução

Atualmente muito se fala sobre o aumento da produtividade e benefícios na utilização de inteligências artificiais generativas, como para fazer pesquisas escolares e acadêmicas ou o uso de agentes em IDEs para explicação de código-fonte ou sugestão de melhorias. Uma pesquisa do Observatório Fundação Itaú e do Datafolha aponta que 93% das 2.798 pessoas entrevistadas utilizam alguma ferramenta de IA. Além disso, estatísticas divulgadas pela Hostinger preveem um aumento na taxa de crescimento anual de 37,7% no mercado de IA.

Esses números reforçam a ideia de que cada vez mais a inteligência artificial será integrada em nosso dia a dia. O "boom" na inteligência artificial ocorreu graças ao desenvolvimento da IA generativa, que permite que IA gere textos, imagens e vídeos em resposta a prompts. Em 2022, com o lançamento do ChatGPT, a utilização de chatbots foi consolidada devido ao GPT-3, um Large Language Model treinado em 175 bilhões de parâmetros.

Porém existe um lado oculto no aumento da utilização da IA, que é seu impacto no meio ambiente e utilização de recursos naturais.

O paradoxo da IA

A IA é, ao mesmo tempo, ferramenta e fardo. Por um lado, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) usa IA para detectar emissões de metano em instalações de petróleo e gás, mapear dragagem destrutiva de areia e melhorar previsões climáticas. Por outro, a infraestrutura que sustenta esses modelos consome eletricidade, água e minerais raros em escala planetária — e produz toneladas de lixo eletrônico tóxico.

"Ainda há muito que não sabemos sobre o impacto ambiental da IA, mas alguns dos dados que temos são preocupantes. Precisamos ter certeza de que o efeito líquido da IA no planeta é positivo antes de implantarmos a tecnologia em escala." — Golestan (Sally) Radwan, Diretora Digital do PNUMA

Em números

Dados de pesquisas recentes (PNUMA, EESI, IEA, ONU e estudos científicos revisados por pares) revelam a escala da pegada ambiental da IA.

552 t

de CO₂eq emitidas no treinamento do GPT-3 (175B parâmetros)

10×

mais eletricidade por requisição ao ChatGPT vs. uma busca no Google

~519 ml

de água por prompt de 100 palavras em modelos como o ChatGPT

8 mi

de data centers em operação — eram 500 mil em 2012

16 Mt

de lixo eletrônico cumulativo de servidores de IA até 2030

800 kg

de matérias-primas para fabricar um único computador de 2 kg

~35%

do consumo elétrico da Irlanda virá de data centers até 2026

5 mi gal

de água/dia em um data center grande — equivale a uma cidade de 10 a 50 mil pessoas

O ciclo de vida da IA

A maior parte do debate público se concentra apenas no consumo elétrico durante o uso. Mas um estudo de 2025 publicado por pesquisadores da Universidade de Bonn, Hugging Face e parceiros — "More than Carbon: Cradle-to-Grave environmental impacts of GenAI training on the Nvidia A100 GPU" — analisou 16 categorias de impacto ao longo de todas as fases da vida de uma GPU, a peça central da IA moderna.

1. Extração e fabricação

Mineração de cobre, ouro, lítio, cobalto e terras raras. Fabricação de chips em fundições altamente intensivas em água e energia.

  • 94% dos impactos de toxicidade humana (câncer) vêm da fabricação
  • 81% da depleção de recursos minerais vêm desta fase
  • O chip da GPU é responsável por 82% da pegada de fabricação de uma A100
  • O dissipador de cobre concentra 91% dos impactos cancerígenos do hardware

2. Uso (treinamento e inferência)

Eletricidade para rodar GPUs, refrigerar racks e manter data centers ativos 24/7.

  • 96,8% das emissões de CO₂ do treinamento do GPT-4 vêm desta fase
  • 96% da depleção de combustíveis fósseis
  • 86% do uso de água atribuído ao treinamento
  • Inferência: GPT-3 em 16 GPUs A100 levou ~3 segundos por batch de 32 prompts

3. Distribuição

Transporte aéreo de componentes de altíssimo valor entre Ásia, Europa e Américas.

  • GPUs montadas tipicamente em Shenzhen e enviadas por avião
  • Contribui ~12% das emissões totais por GPU em algumas configurações
  • Pequena fração relativa, mas significativa em valor absoluto

4. Fim de vida

Descarte ou reciclagem após 2 a 5 anos — vida útil curta para um produto tão denso em materiais.

  • Servidores de IA contêm chumbo, cromo, cádmio, mercúrio e antimônio
  • Apenas processos legais entram nos modelos — descarte ilegal subestima impactos
  • Polímeros das placas (PCBs) não são biodegradáveis e contaminam o solo

Visão de túnel do carbono

Os pesquisadores cunharam o termo "carbon tunnel vision" para descrever a obsessão por medir apenas emissões de CO₂. O treinamento do GPT-4, por exemplo, foi equivalente ao "orçamento ambiental" anual de 11.522 habitantes do planeta apenas para mudanças climáticas, mas seus impactos em toxicidade humana, eutrofização de água doce e depleção de minerais raros excedem qualquer orçamento individual em todas as 16 categorias avaliadas.

Energia & Carbono

Cada modelo de linguagem deixa um rastro mensurável de carbono. A tabela abaixo, baseada no estudo LLMCarbon (Faiz et al., 2024), compara o impacto operacional de modelos reais durante seu treinamento.

Modelo Desenvolvedor Parâmetros GPUs/TPUs Dias de treino Emissão (tCO₂eq)
T5Google11 B512 TPUv32046,7
GPT-3OpenAI175 B10.000 V10014,8552,1
GShard (MoE)Google619 B1.024 TPUv33,14,3
Switch (MoE)Google1.500 B1.024 TPUv32759,1
XLMMeta0,55 B512 V10020,439,0

Para contexto: 552 tCO₂eq equivalem ao consumo elétrico anual de cerca de 120 lares brasileiros — gerados em apenas 14 dias de treinamento. E isso considera apenas a fase de treino, sem contar inferência, experimentação e armazenamento, que somados podem superar o treino.

Carbono operacional vs. embutido

O carbono operacional é o emitido durante o uso. O carbono embutido é o emitido na fabricação do hardware. Quando o data center usa energia majoritariamente fóssil, o operacional domina. Mas em data centers Meta, alimentados em 97% por fontes renováveis, o carbono embutido representa 92% a 95% do total — o que torna a vida útil prolongada do hardware tão importante quanto a fonte de energia.

PUE — Power Usage Effectiveness

Razão entre a energia total do data center e a energia usada apenas pela computação. Um PUE ideal seria 1,0; data centers de IA modernos operam com PUE entre 1,09 e 1,2.

CFE — Carbon-Free Energy

Percentual da eletricidade vinda de fontes livres de carbono. O Google reporta data centers como europe-north1 em 91% CFE (127 gCO₂eq/kWh) versus us-central1 em 97% CFE mas ainda 394 gCO₂eq/kWh, devido a fatores de rede.

H100 vs. V100

Migrar GPT-3 das antigas V100 para H100 reduz a pegada operacional em 71%. Trocar por TPUv4 reduz em 41%. Hardware mais eficiente é uma das alavancas mais imediatas.

Arquiteturas MoE

Modelos Mixture of Experts ativam apenas parte de seus parâmetros por consulta. O GShard, com 619 bilhões de parâmetros, emitiu menos CO₂ no treinamento que o GPT-3, com 175 bilhões.

O sede da IA

Apenas 3% da água da Terra é doce, e somente 0,5% é acessível e segura para consumo humano. Mesmo assim, data centers competem cada vez mais com comunidades por essas reservas.

Quanto consomem?

  • Data center médio: 110 milhões de galões/ano (≈ 1.000 lares)
  • Data center grande: até 5 milhões de galões/dia
  • EUA somam 5.426 data centers consumindo ~163,7 bilhões de galões/ano
  • ~80% da água retirada evapora; o restante volta como efluente quente

Onde dói mais

  • Norte da Virgínia (EUA): mais de 300 data centers consumiram cerca de 2 bilhões de galões em 2023 — alta de 63% em 4 anos
  • Loudoun County sozinho: ~900 milhões de galões em 2023
  • Taiwan: fundições de chips concentradas em zona com secas recorrentes

O custo invisível dos chips

  • Uma fábrica de chips típica usa 10 milhões de galões/dia de água ultrapura
  • São necessários ~1.500 galões de água encanada para produzir 1.000 galões de água ultrapura
  • Cada chip já consumiu milhares de galões antes de chegar ao data center

Água indireta (via energia)

  • 56% da eletricidade dos data centers nos EUA vem de combustíveis fósseis
  • Carvão: 19.185 galões/MWh de geração
  • Gás natural: 2.800 galões/MWh
  • Solar e eólica: praticamente zero

WUE — a métrica da eficiência hídrica

Da mesma forma que o PUE mede eficiência energética, o Water Usage Effectiveness (WUE) mede litros de água por kWh consumido. A média entre data centers é 1,9 L/kWh; o ideal seria 0, atingível apenas em sistemas totalmente refrigerados a ar.

Tecnologias de refrigeração

Refrigeração evaporativa (aberta)

Uso intensivo de água. Comparável à irrigação por inundação na agricultura.

Ciclo fechado (closed-loop)

Reuso da mesma água várias vezes. Pode reduzir o uso de água doce em até 70%.

Direct-to-chip

Líquido refrigerante entregue direto às GPUs e CPUs. Significativamente mais eficiente.

Imersão (immersion cooling)

Servidores submersos em fluidos dielétricos sintéticos. Custo inicial alto, mas economia drástica de água e espaço.

Lixo eletrônico

O mundo já produzia 62 milhões de toneladas de lixo eletrônico em 2022 (ONU). A IA generativa está prestes a adicionar uma onda inédita: um estudo publicado por pesquisadores da Academia Chinesa de Ciências e da UC Santa Barbara projeta que servidores de LLMs gerarão até 16 milhões de toneladas cumulativas de e-waste entre 2020 e 2030 — taxa de crescimento anual composta de até 110%, contra apenas 2,8% do lixo eletrônico convencional.

Distribuição geográfica

  • América do Norte: 58%
  • Leste Asiático: 25%
  • Europa: 14%

Concentração extrema. A vantagem é que rastreabilidade é mais viável; o risco é que comunidades específicas absorvam impactos desproporcionais.

Materiais tóxicos cumulativos até 2030

  • Chumbo: 917 mil toneladas
  • Antimônio: 7 mil toneladas
  • Bário: 6 mil toneladas
  • Cromo: 907 toneladas
  • Cádmio: 30 toneladas
  • Arsênio: 34 toneladas
  • Mercúrio: 7 toneladas

Riscos à saúde

Exposição prolongada a esses metais pesados está associada a abortos espontâneos, malformações fetais, mutações genéticas, disfunção tireoidiana, redução da função pulmonar e distúrbios neurocomportamentais.

Tesouro escondido

Os mesmos servidores descartados contêm cobre, alumínio, ferro, ouro, prata, platina e paládio que, se reciclados, valem aproximadamente US$ 70 bilhões. Minerar ouro de eletrônicos descartados emite 80% menos CO₂ que extraí-lo do minério bruto.

Estratégias de economia circular

Extensão de vida útil

Estender a vida média dos servidores em apenas 1 ano (em uso secundário, "downcycling") pode reduzir o e-waste cumulativo em até 58% — estratégia mais eficaz medida.

Reuso modular

Desmontagem e reaproveitamento de GPUs, CPUs e baterias em outros sistemas. Reduz o e-waste em ~21% (3,4 Mt).

Repropósito educacional

GPUs antigas, mesmo obsoletas para LLMs de fronteira, ainda atendem tarefas como NLP de pequena escala, automação básica, projetos Linux e media centers escolares.

Centros circulares

A Microsoft mantém Circular Centers na Europa e América do Norte que processam mais de 10 mil servidores por mês: 83% são repropostos e 22% dos materiais são reciclados.

Justiça ambiental e a "atribuição assimétrica"

O estudo da Universidade de Bonn destaca uma assimetria crítica: quem usufrui da IA não é, em geral, quem arca com seus custos ambientais.

"Populações nas economias ocidentais e tecnologicamente avançadas — principais beneficiárias dos serviços de IA — sofrem predominantemente impactos globais difusos como mudança climática. Já populações marginalizadas em regiões de extração, processamento, manufatura e descarte recebem benefícios mínimos enquanto absorvem degradação ambiental local concentrada (emissões tóxicas, depleção de recursos, danos a ecossistemas)." — Falk et al., 2025

Onde se extrai

Mineração de cobalto na República Democrática do Congo, lítio no triângulo andino, terras raras em Mianmar e China. Mineração intensiva, frequentemente em condições insalubres.

Onde se fabrica

Fundições concentradas em Taiwan, Coreia do Sul, China e Japão — regiões enfrentando estresse hídrico recorrente. Em 2023, agricultores de Taiwan ficaram sem água para que fábricas de chips continuassem operando.

Onde se opera

Data centers em Iowa (EUA) treinaram o GPT-4 em rede elétrica majoritariamente fóssil. Em Loudoun County (Virgínia), comunidades disputam recursos hídricos com gigantes da nuvem.

Onde se descarta

Boa parte do e-waste mundial termina em redes informais de reciclagem em Gana, Nigéria, Índia e Paquistão, onde trabalhadores queimam placas a céu aberto para recuperar metais.

Mitigação: o que pode ser feito

O PNUMA, em nota publicada em 2024, propôs cinco eixos para reduzir o impacto ambiental da IA. Estudos científicos complementares apontam alavancas técnicas concretas.

1. Padronizar a medição

Hoje há escassez de dados confiáveis. É preciso estabelecer procedimentos padronizados para medir e divulgar o impacto ambiental de cada modelo e serviço.

2. Regulamentar a transparência

Exigir, por lei, que empresas divulguem as consequências ambientais diretas de seus produtos baseados em IA — algo análogo ao que existe para emissões automotivas.

3. Algoritmos mais eficientes

Destilação de modelos, quantização, poda (pruning), arquiteturas MoE e técnicas de paralelismo otimizado podem reduzir o uso de energia em 16% a 39% em treinamentos típicos.

4. Data centers verdes

Energia renovável, refrigeração de circuito fechado, reuso de água e localização em climas frios. A meta de Microsoft, Google e AWS é "carbono negativo" ou "zero water" até 2030.

5. Integração regulatória

Inserir políticas de IA dentro de marcos ambientais existentes — não tratar como tema separado. UE e EUA já introduziram propostas legislativas, mas ainda são exceções.

Bônus: Green AI

O movimento Green AI (Schwartz et al., 2020) propõe que eficiência computacional seja reportada como métrica principal em pesquisas de ML — ao lado de acurácia, relevância e velocidade.

O que você pode fazer